Isto de viver na Holanda tem as suas vantagens – as nossas despesas com o quarto do bebé e afins têm sido muito reduzidas até agora.
Ao contrário daquilo que via em Portugal, em que se gasta uma pequena fortuna para comprar tudo novo (seja para o bebé, seja para as crianças em idade escolar), os holandeses têm por hábito dar e/ou vender aquilo de que já não precisam. E outros expats que vivem na Holanda vão adquirindo o mesmo hábito.
Foi assim que, por mero acaso, vi num grupo do Facebook que um casal de portugueses que mora em Lelystad tinha um conjunto de alcofa, carrinho de passeio e maxi-cosi de que já não precisam e perguntavam se alguém estava interessado – junto com isso, ainda nos deram o saco muda-fraldas, uns conjuntos de lençóis para berço, cobertores, fraldas, algumas roupas e brinquedos.
Do mesmo modo, a minha supervisora disse-me que ainda tinha o parque do filho de que já não precisava – era só passar por casa dela para ir buscá-lo.
O berço, comprámos em 2ª mão por cerca de um terço do preço, através de um site holandês, a um casal que vive no centro de Utrecht. E só pagámos pelo berço porque achei aquele modelo específico prático pois dá para transformar em cama – caso contrário, também haviam outros berços usados e em boas condições para dar a quem desse jeito.
Comprámos, isso sim, um roupeiro novo para as roupas da Maria mas apenas porque aqueles que encontrava à venda em 2ª mão (por preços bem acessíveis até) já estavam armados, o que dificultava o transporte.
No outro dia, um colega que tem uma menina pequenina, abordou-me na cantina para dizer que ainda tinha em casa a cadeira onde a mulher dava de amamentar à filha; não a usavam mais e perguntou-me se eu já tinha uma e se estaria interessada.
Outra vez, fui à pedicure (creio que era apenas a 3ª vez que lá ia e nem falamos muito porque a senhora não se sente muito à vontade a falar em inglês) e mal cheguei disse-me logo que tinha estado a dar uma arrumação no armário e encontrou a bomba tira-leite; estava ela a pensar quem conhecia que pudesse dar-lhe uso e lembrou-se de mim – é só esterelizá -la e está pronta a ser usada.
E é assim que funciona neste país, onde o salário mínimo nacional roça os 1.500 euros mensais mas ninguém atira dinheiro ao ar nem compra algo só porque o vizinho também tem ou por pura ostentação. Aliás, noto mesmo uma expressão de satisfação (diria até quase de felicidade) no rosto das pessoas quando nos dão estas coisas; parecem sentir-se genuinamente bem com esta “transferência” de bens.
Chamem-nos forretas mas estes valores são importantes para nós e é com base neles que queremos educar a Maria: não viver para as aparências, não ser materialista, não querer mostrar o que não se tem ou não se precisa ter. Não, não se trata de nenhuma lavagem cerebral depois de quase ano e meio de Holanda – já partilhávamos esta linha de pensamento antes de nos mudarmos para cá, apenas não conheciamos muita gente na Madeira que a partilhasse (especialmente na prática). Aqui, o lema não é gastar enquanto se tem mas sim poupar o que se tem. E não porque se tenha pouco. Os mais ricos gostam tanto das promoções no supermercado quanto os menos ricos. É uma questão cultural.