Este primeiro ano em casa com a Maria foi uma benção e, ao mesmo tempo, das coisas mais exigentes que já fiz na minha vida.
O meu contracto de trabalho na empresa onde estava a trabalhar antes da Maria nascer terminou pela altura em que entrei em licença de maternidade. Aqui na Holanda, a licença de maternidade é de cerca de 3 meses. Com um membro da equipa a sair e outro de baixa, contactaram-me ao fim desse tempo para saber se estava interessada em voltar para a equipa já que iam ter que contractar alguém. Ora, eu não fui capaz de colocar a minha bebé - tão pequenina, tão indefesa, ainda a sofrer com tantas cólicas - assim, de repente, o dia todo, 4 ou 5 dias por semana, num infantário. Na altura, era algo completamente inconcebível para mim. E também estava a sentir-me tentada pela ideia de ficar com a Maria durante o primeiro ano - algo perfeitamente normal aqui e aceitável pelas entidades patronais, nenhuma mulher fica "mal vista" por fazer uma pausa na carreira profissional de modo a poder dedicar-se aos seus filhos.
Acho que foi só aos 5 meses que pudémos dizer que estávamos finalmente livres das malditas cólicas. Por essa altura também fizémos 2 viagens em família, pelo que foi apenas a partir dos 6 meses da Maria que comecei lentamente à procura de novo emprego. Estávamos em Março.
Apesar do que os Holandeses dizem, continuo a achar que existem muitas ofertas de trabalho, incluindo na minha área. Contudo, vi-me muito limitada na minha procura de emprego pois muitas das empresas exigiam conhecimento da língua holandesa, a par do inglês. Os meus conhecimentos de holandês são muito básicos pelo que nem me candidatava a essas ofertas de emprego.
Por outro lado, estar sentada em frente ao pc à procura de emprego com uma bebé em casa é uma tarefa ingrata. Muitas vezes tive que desistir porque a Maria queria atenção ou brincadeira ou porque tinha uma fralda para mudar ou estava na hora de comer. À noite, quando ela já dormia, estava demasiado cansada para me concentrar em frente ao pc - e também queria passar algum tempo de qualidade com o jeitoso ao fim do dia.
Depois, havia sempre as chamadas perdidas para discutir o meu cv, falar sobre uma determinada posição a que me tinha candidatado ou marcar uma entrevista pois achavam de me ligar justamente quando estava a adormecer a Maria ou a trocar-lhe a fralda ou lá o que fosse. Ah, e também houve entrevistas inciais ao telefone com a Maria ao colo, por vezes choramingona - o que vale é que, como já disse anteriormente, as pessoas aqui são muito compreensíveis e muito a favor da vida familiar.
Foi quando a Maria tinha uns 9 meses que senti que estava na altura de pô-la numa creche. A Maria adora bebés e outras crianças e via que ela estava a precisar dessa interacção. Tinhamos decidido que a Maria apenas iria para a creche quando eu encontrasse um emprego. As creches são absurdamente caras na Holanda, tornando-se muito mais acessíveis quando recebemos o apoio do Estado - mas para isso, a informação que eu tinha na altura era de que ambos os pais têm que estar a trabalhar pois o Estado Holandês entende que, se um dos pais está em casa a tempo inteiro, não existe uma real necessidade de colocar o(s) filho(s) na creche (o que mais tarde vim a descobrir que não é bem assim).
Entretando, a Maria costumava ficar cerca de uma vez por semana com uma gastouder - a oma Hennie - tendo passado a ficar menos vezes durante o Verão pois tivémos quase sempre companhia de família e amigos.
E eu continuava com a minha procura de emprego, ia a entrevistas com alguma regularidade, mas ainda nada.
Entretanto tivémos conhecimento de que, mesmo estando em casa, tinha direito a algum apoio do Estado para a Maria ir à creche e foi assim que, em Dezembro, ela passou a ir duas manhãs por semana. Era o tempo que eu aproveitava para me dedicar a enviar CV's e/ou ir a entrevistas de emprego.
Mas voltando à questão de ser Mãe a tempo inteiro, foi sem dúvida fantástico poder acompanhar o crescimento e desenvolvimento da Maria durante mais de 1 ano. Penso que em Portugal não poderia dar-me a este "luxo".
Mas também foi super exigente, tanto física como psicologicamente.
Aqueles primeiros meses em que lutámos contra as cólicas e em que passava a maior parte do dia e da noite com a Maria ao colo, a chorar e a se contorcer com aquela dores violentas, deram cabo de mim fisicamente. Também nunca mais consegui recuperar o sono perdido. Aliás, para nós não houve descanso. Não havia a possibildade de a Maria passar uma tarde com os avós ou tios ao fim-de-semana para podermos descansar, para dormirmos uma horas, para irmos jantar juntos - enfim, o que fosse.
Sabiamos que não ia ser fácil quando decidimos ter um bebé longe da família mas penso que nunca pensámos que seria tão exigente.
Costumo dizer que o meu estado normal agora é "cansada". É como me sinto. O tempo todo. Mesmo quando acordo de manhã. Às vezes sinto-me exausta, outras vezes estou "só" cansada.
E com o passar do tempo, as minhas conversas começaram a incidir maioritariamente sobre a Maria e assuntos relacionados com a bebés. E até havia muito assunto de conversa pois a maioria dos nossos amigos também tem bebés. Até que um dia, quando fomos almoçar com um casal de amigos que ainda não tem filhos, e enquanto eles e o jeitoso falavam sobre trabalho e afins, senti que já não sabia ter uma conversa "normal" por muito tempo com outros adultos, sem falar da Maria... e afins.
E repito, sublinho, enfatizo que me sinto abençoada por ter tido a possibildade de ficar em casa com a Maria durante tanto tempo mas não sou, decididamente, do "stay at home type of Mom".
Hoje recebi uma notícia que aguardava há algum tempo - tenho emprego!
Sei que vai custar inicialmente, mas espero de alguma maneira tornar-me ainda numa melhor Mãe quando começar a trabalhar.